sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O texto que eu gostaria de ter escrito

"O meu perfil de Presidente da República é alguém que não tenha sido primeiro-ministro durante dez anos e que não tenha esbanjado rios de dinheiro e de oportunidades. Que não ande na política há mais de trinta anos e continue a fingir que paira sobre ela. Que saiba que se pode enganar e que por isso tenha dúvidas. E que não tenha ligações políticas a responsáveis pelo maior calote da história recente portuguesa. Ficaria, depois de defender este perfil genérico, muito surpreendido se alguém achasse que estou a pensar numa pessoa em particular.
O meu perfil de Presidente da República é alguém que não tenha envolvido Portugal numa guerra injustificável que se baseou numa mentira. Que não tenha abandonado as suas obrigações de primeiro-ministro e que não as tenha entregue ao colega de partido a quem devia o favor político de ter chegado ao PSD. Que não o tenha feito porque lhe ofereceram melhor emprego lá fora. Que não tenha usado como argumento para o fazer a enorme ajuda que poderia dar a Portugal e que não se tenha esquecido do País no dia seguinte. Que não tenha sido um capacho perante os poderes da Europa e que não tenha contribuído com isso para a destruição do futuro da União Europeia. Que não tenha pressionado, na presidência duma instituição internacional, órgãos de soberania nacionais. Que não tenha sido cúmplice e até ator central da imposição duma agenda política ideológica que nunca foi a votos nos países onde foi aplicada. Ficaria, depois de defender este perfil genérico, muito surpreendido se alguém achasse que estou a pensar numa pessoa em particular.
Duvido que Passos Coelho, por amor próprio, tenha grande coisa contra os "cataventos" que agora não quer na Presidência. Se há coisa de que dificilmente se pode gabar é de coerência. Ou que, tendo em conta o papel conveniente que Cavaco Silva tem tido, faça grande questão em ter um "árbitro ou moderador" em Belém. Mas compreendo que procure um presidente discreto, que não faça ondas. Pouco "popular" e incapaz de ser "catalisador" de seja o que for. Habituado a obedecer e fazer cálculos de conveniência. O homem de Passos para Belém está em Bruxelas e provavelmente é o pior candidato a presidente que a direita poderia encontrar.
Marcelo Rebelo de Sousa, o candidato honorário a Presidente, enfiou a carapuça das várias deselegâncias da moção passista e saiu duma corrida onde não sei se alguma vez realmente esteve. Mas disse uma coisa acertada: Passos Coelho "acha que já ganhou ou pode ganhar as eleições e pode definir o perfil do candidato que quer apoiar". É verdade que, em apenas um mês, PSD e CDS convenceram-se que se deu uma volta de 180º e a maioria parlamentar vai de vento em popa. E, nesta convicção, tem contado com a companhia de muitos cataventos do comentário.
Só que a realidade é um pouco diferente. Apesar das doses cavalares de propaganda mediática para demonstrar que entramos num novo ciclo económico e político, Passos está a cair nas sondagens (veja-se a deste fim de semana, no Expresso). O PSD vale hoje 25% e a direita toda junta não passa dos 33%, mais de 4% abaixo das intenções de voto no maior partido da oposição sozinho. O PSD está no osso e canta de galo.
Uma coisa são as manchetes, os telejornais e a excitação do exército de comentadores da área do PSD que ocupa o espaço mediático. Outra, bem diferente, é a folha de pagamento dos portugueses ao fim do mês. Uma coisa é o discurso que a comunicação social e o poder constroem sobre a realidade, outra são as condições materiais da vida das pessoas. E, na hora da verdade, é a segunda que conta. O desempregado que desespera e que perdeu o subsidio, o pai que viu partir o seu filho emigrado, o funcionário público a quem cortaram o salário, um reformado a perder rendimento todos os anos, o utente do hospital que vê a decadência do SNS, o professor e o estudante que vivem o sufoco em que escolas e universidades públicas vivem, o pequeno empresário que faliu ou está enterrado em dividas e os familiares e amigos de todas estas pessoas não se comovem muito com estatísticas mais ou menos marteladas ou com supostas melhorias económicas que não têm grande efeito nas suas vidas. Comovem-se com a sua vida e é ela que determinará, acima de tudo, o seu voto.
Está estudado: os efeitos do discurso nos media, em comparação com os efeitos da experiência direta, tendem a ser sobrevalorizados pelos próprios media. E é normal que também sejam sobrevalorizados pelo PSD. Um partido que acha que o debate das presidenciais, nesta altura, pode mobilizar mais do que os putativos candidatos e os jornalistas não está em condições de compreender a diferença entre o país mediático e o que vive longe dos holofotes.
Para não se pensar que sou excessivamente crítico, quero dar os parabéns ao governo por ter conseguido descidas nas taxas de juro da dívida, não só em Portugal, mas também na Grécia, em Espanha, na Irlanda e em Itália. É motivo de orgulho saber que a política de Passos Coelho não tem apenas efeitos no País, mas em quase toda a Europa."

Sem comentários:

Enviar um comentário